Às vezes sinto falta de algo ou alguém que me inspire a tanta segurança que eu já tive um dia, embora não lembre exatamente quando a tive e ainda menos quando a perdi. Não lembro exatamente como eu era quando mantinha tudo organizado, regular, mas sei que sinto falta dessa estabilidade, de ter objetivos e focar isso com alguém (que eu julgue) equilibrado, sereno. Acho que sinto falta de uma existência na minha vida que se revele um tipo comum com problemas comuns, que calcule a dimensão real dos problemas. Se, por vezes, o raso me derruba, às vezes também me surpreendo de ver como a nossa vida é carente do que (eu julgo que) é comum. Relacionamentos comuns, pessoas comuns com famílias comuns e fins de semana comuns. Eu sei que, nos dias atuais, com todas as novas atribuições no cotidiano, o mercado de trabalho, a globalização, a estafa, ninguém tem mais tanta paz da qual queira ou possa se orgulhar. Mas quando já pensamos tanto a respeito das finanças, do trabalho, das responsabilidades sociais, começo a achar demais qualquer conflito banal com pessoas que nos são próximas.
Acho que eu sinto um pouco a falta da piedade que as pessoas me inspiravam quando agora tudo o que eu desejo é que elas se afastem. Sinto falta da vontade que eu tinha de mudar, de ser forte, quando ao primeiro sinal de desavença eu boto um ponto final no meio de tudo (e esqueço o “tudo”). Às vezes é estranho ver alguém usando o que eu disse para sensibilizar alguém, mas a real é que nem eu acredito mais que aquele papo do determinismo seja argumento pra explicar tanta gente insana, limitada, burra. E aí começo a ceder um pouco, a aniquilar um pouco o argumento que eu tinha de que a gente pode sempre mudar, sempre lutar com aquilo que nós julgamos alheio aos nossos princípios se a gente se espelhar um pouquinho no amor.
Quase sempre eu penso assim, mas quando o bicho pega, o outro é sempre quem eu boto a perder.
Descentralizando responsabilidades pra dormir em paz.
Em alguns dias, fechar os olhos é mais do que simplesmente não querer ver.