Às vezes parece que sempre estou atropelando as coisas. A impressão é que eu tenho tanta coisa para concretizar, tanta esperança pra moer, que, quando percebo isso, vou me liquidando. Percebo o quão meus planos também vão perdendo seu entusiasmo inicial à medida que uma parte de mim se entrega a outra muitíssimo gasta. E isso acontece todos os dias, a cada minuto, principalmente quando, apesar de todo o cuidado, eu ainda espero muito dos outros.
Não sei se faz sentido mas acho que é meio um consenso que alguns daqueles a quem mais amei sempre frisaram o fato d’eu sempre machucar as pessoas muito mais que o habitual, muito mais do que qualquer outra pessoa, que não eles, suportaria. O que me faz pensar até que ponto estou sendo tolerante comigo ou com os outros. Porque às vezes eu também acordo solitária. E às vezes eu também sou forte demais pra lidar com o amor alheio.
Às vezes eu diminuo a fonte do bloco de notas para escrever para alguém. Às vezes é para me certificar de que ninguém vá conseguir ler, mas na maioria das vezes é porque parece que eu ainda tenho tanto a escrever nas mensagens que não envio para pessoas que sequer tenho certeza se um dia cheguei a conhecer, mas das quais sinto tanta, tanta falta.
Às vezes creio ter esquecido uma mágoa, mas também às vezes isso cresce em mim de forma que eu não sei se devo admitir isso como uma justiça ou uma vingança, como se isso fizesse alguma diferença, como se ambos não equivalessem ao meu caráter em determinado momento. Na linha tênue do justo e do rápido, muitas vezes dar o tiro me parece mais enternecedor, mais sensato que confiar tal feito ao tempo. A palavra é uma arma quente.
Às vezes amanheço projetos e, na mesma manhã, os apago. Às vezes eu quero abraçar o mundo sem sequer conseguir querer me aproximar mais dos meus amigos. Às vezes, quase sempre, fico impaciente quando alguém não me contraria e, quando isso acontece, quase sempre me entendio. Às vezes, quase sempre, os dias se iluminam (imunizam) com sorrisos e abraços, apenas isso.
Às vezes acho que eu gosto muito de gatos, de chocolate, de ler, de escrever, de ter dinheiro. Às vezes eu acho que tudo isso só me distrai um pouco mais do que eu tanto tenho tentado ser sem êxito. E, ultimamente, quase sempre.