Sentaram cada um em uma poltrona diferente. TV desligada, par de tênis na quina dos sofás. Pernas esticadas pós-garoa e pós-almoço de domingo com a família. Descanso também do dia anterior, o dia do filme sagrado da semana. Dia de jantar fora com outros afetos, comer até estufar o umbigo, dividir guarda-chuva para três ou quatro. No cinema, aos sábados, os lançamentos com os amigos. No domingo, em casa, a dois, o underground depois do soninho do almoço. Ressaca já acumulada da semana, de um cansaço tão diverso, mas também tão sem remorso. Quarta de teatro com os colegas de trabalho, quinta de show com a nova banda do coração. Sexta-feira, enquanto a cidade começa a acordar, ele finalmente estuda e ela esquenta o colchão enquanto ele não chega. Porém, tanto passo para no finzinho do domingo em uma conversa, finalmente, capaz de algum silêncio. Pra quê? Isso acontece, precisamente, nas poucas vezes em que falam de futuro não apenas em um contexto a dois, mas global. O mundo sempre assusta demais, por isso acabava com eles. Acaba sempre naquela ideia de, talvez, um dia, não poder mais. Até que, finalmente, um olha condescendente a esperança do outro. Tanta gente já empilhando grilo e nós… nós pra quê?
Enfim, cada um pega o seu par de tênis e desce as escadas para se divertir, ainda um pouco mais, antes de dormir. No dia seguinte, tocam dois despertadores no mesmo horário. A rotina segue e a gente sabe que, no final de algum ponto, um vai sussurrar alguma frasezinha bacana no ouvido do outro, que vai rir. E esse sussurro pode ser o sarro da cara de alguém, um parêntese do jornal, um comentário sobre o outdoor, o lembrete da necessidade de se comprar mais bolacha. No entanto, o que mais parecerá comum aos demais passageiros é uma coisa que, lá no fundo, eles sabem estar implícito em todas essas hipóteses, todas essas demonstrações. E eles se perguntam novamente: pra quê?
Se o sorrir é sempre além.
Quando você descreve um encontro, ainda mais com uma pessoa pela qual nutre tanto carinho e amor, o faz de uma forma tão única que realmente nos inspira a acreditar na leveza de sentimentos e relacionamentos como esse
.
(e é tão bom!)