“Eu sei que é difícil defender milagres. Ou você acredita neles, ou não. Eu sempre acreditei neles.” (Will Eisner)
Sempre que levo alguém para o teatro fico boba. Boba de não calar a boca, de sacudir a pessoa a toda hora, de dar pulinhos, de sorrir-mestre. Porque teatro, pra mim, além de equânime, é uma arte injustiçada. Mas eu gosto. Eu gosto e acho linda essa linha tênue na qual esbarramos e que separa ficção e realidade, ator e público.
Ontem nós fomos ver a Avenida Dropsie do Felipe Hirsh baseado nos quadrinhos de Will Eisner. Na temporada de 2005, assisti ao Sketchbook e perdi o outro lado da adaptação. Agora, comemorando os 15 anos de parceria da Sutil Companhia de Teatro com o Teatro Popular do SESI, a peça voltou a São Paulo e eu não perdi tempo, definitivamente.
Para começar, vale frisar que rola, sim, uma bitolagem da minha parte em relação a Sutil Companhia de Teatro que tenho acompanhado, espetáculo a espetáculo, desde 2005. Na verdade, muito mais por uma curiosidade do que necessariamente por achar as peças excepcionais, tem crescido, a cada ano, uma simpatia por cada trabalho do grupo encabeçado pelo Hirsh e pelo ator Guilherme Weber, este último responsável também pela criação de algumas peças.
Também não posso deixar de mencionar que, tal curiosidade, tem fundamento nas influências literárias de Hirsh. Ora mencionando John Fante, ora mencionando Nick Hornby, por exemplo, pode-se dizer, com segurança, que a solidão em meio a multidão é tema recorrente no teatro da Companhia. No entanto, o tema pode até soar batido, mas, como dito no início da peça, é só uma perspectiva que pode ou não ser equivocada. Sobre Eisner, Hirsh comentou: “Eisner soprou chuva na minha juventude quando peguei nas mãos a minha primeira edição de Contrato com Deus”.
Acho genial ver como o humor fino da Companhia – a começar pelo nome – pode nos levar do riso ao desgosto em segundos. De certa forma, o teatro deles me constrange, seja pela forma como Hirsh brinca com o despudor – a nudez gritante que também pode ser cândida -; como aborda estereótipos e preconceitos tão próprios, mas também tão tímidos, ocultos em cada um de nós; como não só nos representa, mas também desperta em cada um a sensação de vazio, de amargura, de solidão. Compadecemos sem sequer perceber que somos nós lá no palco. E rimos a rodo.
A Avenida Dropsie pode ser qualquer avenida. E os três andares com mais de dez metros da cenógrafa Daniela Thomas ressalta ainda mais a nossa pequenez ante qualquer metrópole. São oito atores representando diversas personagens em um jogo rápido que, por incrível que pareça, à certa altura nos angustia pela sua impressão de lentidão. Na verdade, os atores são dinâmicos, mas o sentimento não. A gente espera por uma felicidade que não vem. É vertiginoso. E, não menos importante, é a narrativa feita por Gianfrancesco Guarnieri que se impõe a todo o momento como uma voz gasta, velha de guerra, mas deveras acolhedora. A voz de Eisner por Guarnieri me deu esperança. Uma esperança modesta, mas ainda esperança.
Sobre milagres… São alguns bons minutos de chuva no espaço cênico que consomem doze toneladas de água. É um momento lindo. Mas, mais que isso, milagre, mesmo, foi, a reação do público que ovacionou a parceria da Sutil Companhia com o SESI. Sim, o teatro é uma realidade possível. E ver o público diverso de pé aplaudindo a própria solidão, como se estivesse em um show de rock, é de rasgar a pele.