Éramos nós dois ali, os de sempre, sempre dispostos um com o outro e indispostos consigo. Depois de um tempo, de tantas vidas, de tantas solidões, é normal que eu anseie, mas também tenha tanto medo de proteção. Eu fiquei o tempo todo lá, com ele, sorrindo do meu desejo e da minha dedicação, mas, ao mesmo tempo, com um medo absurdo de mim, do meu medo do medo. De tantas palavras duras, despedidas tristes, acusações equivocadas, violências e vinganças desnecessárias, principalmente nos últimos dois anos, acabei me habituando ao silêncio e convivendo muito com a insegurança. Isso deu margem para uma personalidade ora ácida, ora tímida e, quase sempre, omissa. Eu que não sabia mentir, tampouco falava a verdade. Mas eis que me aparece ele, alguém, desde aquele dia, olhos iguais aos meus, peixinho e estrelinha no mar. E desde então eu tenho oscilado entre o que persigo e o que me persegue. Mas, hoje, especialmente, depois de tantas noites reconhecendo, querendo, gozando segurança, eu vi, pela primeira vez, que já não era mais tanto mérito meu, mas uma sorte, um acaso divino, um brilho sem igual que eu já não posso fazer nada se não viver com. Com ele, por nós, seja pelo tempo que for, seja pelo medo que vai. Porque a segurança, mesmo, só me alcançou quando o vi oscilar pela primeira vez. E eu tive medo, medo, medo. Mas dessa vez o medo que eu abracei já não era mais o meu. E, como uma iluminação, selamos um novo acordo. O jogo acaba. Eis que começam os nós. Nós contra o medo. E o medo sem ninguém.
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