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Acabei de voltar da sala do meu amor. É, todo dia eu vou lá roubar um beijinho e ver aqueles olhos caídos brilharem pra mim. Aí volto pra cá e tem um sonho na minha mesa que a minha chefe deixou e o pilurito (aqui a gente fala errado propositalmente) de uma amiga. Vou lambendo os dedos e rindo até chorar, até doer, com os cinco bobos que trabalham comigo e, coincidentemente, são os meus melhores amigos, cheios de traquinagens geniais. É queijo coalho, foto do guarda-chuva, um espacinho dividido por seis cabeças… e como cabe coisa ali! Aí, naquele calorzinho do corredor, às vezes vejo um cachorrão ou uma criança passando e acho mó barato. Tem cara de coisa feliz. Volto pra minha mesa e em cima dela tem meu quadradinho do Tricolô, meu lápis cheio de balangadã, o quadro de areia que meu namorado me deu. Até essa livraiada não me incomodou tanto hoje. Nem as histórias chatas da Heloisa Prieto.

Tudo isso ajuntado com uma fezinha lá na frente e uma quase certeza de que Deus olha por nós.

Ié.

Gataria

Adoro minha gata. Adoro. Adoro o jeito dela miar na janela, de roubar um teco da minha cama, de esfregar o focinho na gente. Adoro meu gato também, aquele peste que sempre caga fedido, mas eu adoro pôr no colo. Enfim, adoro fazer parte da família-gato. É, eu adoro, sim, viver cercada de gatinhos.

Somos quem podemos ser

Eu nunca tive ninguém para me impor limites.

Eu cresci sem a presença do meu pai e fui criada por uma mãe sem a presença efetiva de um marido. Fui também, até certa idade, criada pelos meus avós e meus tios, porque meus pais sempre trabalharam muito. As poucas advertências que ouvi foram dadas quase sempre em tons de conselhos. Quando não, eu tinha liberdade para sempre responder no mesmo tom. Minhas amigas diziam que eu tinha sorte de não ter hora para chegar, de não ter pai ciumento, de ter uma mãe tão compreensiva. Enfim, isso não justifica as escolhas que fiz e a forma como delineei meu caráter, mas o fato é que eu realmente não tinha limites se não aqueles que eu mesma determinava. Logo, a única coisa que sempre me ficou clara é de que eu era e precisava ser forte.

Por outro lado, a minha vida foi sempre toda amor. Eu aprendi isso, sobretudo, com meus pais. Eles nunca falaram comigo, explicitamente, quando criança, sobre o quanto me amavam, mas eu sabia pelos abraços, pela forma como eu sempre andava com eles de mãos dadas, pela cumplicidade, pela forma como doía e dói dizer tchau. Eu aprendi com os meus pais um amor sem igual. O amor que eu identificava nos livros, que eu via nos filmes, tudo isso já existia antes e eu me orgulhava muitíssimo. O que eu tenho de mais valioso, eu aprendi com o altruísmo dos meus pais. Eu aprendi com eles o que mais me machucou e machuca, mas também com eles aprendi que não há arrependimento quando a dedicação é sincera, quando o amor é real.

Nos meus 15 anos eu conheci duas pessoas que, de um jeito tão revolucionário, foram colocando um monte de linhas, de lugares, de papel preu poder pintar o amor que eu tinha aprendido lá atrás. Eu encontrei quem me confirmasse o que eu não sabia dizer, mas sabia existir. Fui aprendendo que amor não acaba.

Eu tive a sorte grande de conhecer, ainda quando criança, duas pessoas que me viam como criança, mas que por algum motivo ainda muito obscuro, pra mim, enxergaram alguma coisa que eu tinha de especial e que poderia ser ainda mais especial no futuro. Entre essas pessoas e eu havia cerca de sete a oito anos de diferença. Até mesmo na rua onde eu moro, costumava andar com pessoas muito mais velhas. Eu me lembro de encarar tudo isso sob uma perspectiva muito boa. A de que eu era, sim, muito madura para minha idade, mas também que eu podia recuar quando quisesse, responsabilizando o fato d’eu ainda estar muito crua pra entender certos afetos e suas circunstâncias na proporção que elas mereciam.

Então, como ocorre com todos, eu fui ignorando o que não me animava mais e fui ficando cada vez mais próxima de alguns poucos. O problema é que essa coisa de ‘ignorar’ é o jeito mais brusco, mais sacana de incomodar alguém. E isso eu faço aos montes com muito mais naturalidade do que eu gostaria.

É claro que eu nem sempre pisei e piso em ovos. Com algumas pessoas foi diferente, mas decerto também porque tive sorte nas escolhas que fiz e, principalmente, sorte nas escolhas que fizeram. Quando a escolha é mútua, o amor não acaba. Mas sempre que acaba (va), acaba (va) sempre igual, sempre com as mesmas palavras ardilosas.

Sempre me diziam que eu era fria, que eu era meio feito pedra, que tudo era do meu jeito. Que o meu orgulho ia me matar, que eu era arrogante. E, não raro, que a culpa d’eu ser tão mimada era culpa dos meus pais. Mas, a real é que sempre que eu tretava com alguém era porque esperava que me perguntassem como eu estava, como eu me sentia, como eu sentia que eu era e não simplesmente me apontasse a cara por um único ângulo. Eu achava que o pessoal confiava demais na segurança que eu aparentava. Eu achava que achavam que eu era muito mais forte e independente do que eu realmente era.

Aos poucos fui concordando com alguma coisa, mas não que isso me incomodasse. Eu sempre tive muito claro na minha cabeça que o fato de ter sido criada assim caracterizava muito mais pontos positivos que negativos. Aí com o tempo eu fui delineando um pouco mais as minhas relações e concluindo que, sim, apesar de tudo, eu queria ser como eu era. Principalmente porque nesse caminho todo eu conheci inúmeras pessoas, mas uma, em especial, que não só me ensinou, no dia-a-dia, a valorizar mais a capacidade que eu sei que eu tenho de engrandecer o amor e fazer as pessoas acreditarem nisso, mas também que comigo viveu um amor e me mostrou, por meio dele, como eu podia mudar, me aceitar e me acertar mais pra me ajudar e ajudar mais as pessoas. Eu comecei a achar que, porque eu tinha jeito, todo mundo podia ter também.

Toda a minha história, a minha vida, todas as minhas relações me levam ao mesmo ponto, ao mesmo lugar. Eu sempre acreditei e sempre vou acreditar que as coisas mais improváveis só vão mudar por meio do amor e que sempre vale a pena insistir nele, apesar de tudo e de todos. Por causa disso, a minha dedicação não tem precedentes. Seja no trabalho, nos estudos, nas relações eu sempre só soube fazer as coisas me dedicando muito. Chega a ser algo doentio essa insistência arredia que eu tenho de acreditar que uma hora, até aqueles que mais me machucam conscientes do que estão fazendo, terão um insight e enxergarão as coisas um pouco mais como eu gostaria que elas fizessem.

O fato é que eu estou extremamente de saco cheio das pessoas me dizendo como eu sou, como eu deveria ser, porque eu sou assim, quando eu só queria que elas me aceitassem como eu realmente sou. Só queria que parassem de jogar o que eu disse contra mim me lembrando todo o tempo que eu sou como eu nunca quis ser, que quisessem ficar perto de mim só com aquilo que eu tenho pra oferecer. Queria que entendessem que, pra mim, é tão raro pedir ajuda que, quando eu peço, queria que isso fosse valorizado.

Eu comecei a escrever esse post pensando em uma coisa, mas terminei pensando em outra. Revivendo um pouco a angústia que eu estava quando comecei a escrever esse post, fiquei a me perguntar se tanta insistência, tanta determinação não é só tolice minha, não é só a esperança besta que eu tenho de novo e de novo de que o amor vai fazer com que as pessoas se importem com o fato d’eu me importar.

Por outro lado, comecei o post falando de limites. Fico me perguntando se não está na hora d’eu me resguardar um pouco, d’eu me tocar um pouco, de cair a ficha de que algumas coisas são isso aí mesmo, imutáveis.

O que eu comecei a pensar com isso tudo é se, no final das contas, escolher o caminho que eu escolhi vai me levar, de fato, a um lugar onde eu queira estar.

Ainda tenho lá minhas dúvidas.

9051

13:00

Conversava há pouco com um amigo a respeito da confiança e da expectativa que tenho em relação a algumas pessoas. Chegamos a um consenso que a gente se engana demais, se desrespeita demais e desrespeita demais o outro também.

Isso me machucou um pouco. Falando sobre, comecei a me perguntar quanto tempo mais vou ficar esperando que as pessoas mudem enquanto me desrespeito tanto, infrinjo tanto conceitos meus que são tão íntimos e que me detonam mais a cada solavanco.

E sinto tanta saudade das coisas que eu tenho vontade de arrancar do meu peito com as mãos…

(…)

Sei que esse negócio de “se” não vem a calhar quando as coisas já aconteceram, mas pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes me fazem repensar ações corretivas para o agora, para o hoje. A gente não muda as coisas do passado, mas pode viver melhor no futuro.

Eu tenho medo.

Comecei a me perguntar como seria se eu tivesse trabalhado melhor a minha parte nisso tudo, se tivesse compreendido melhor quem me compreendeu tão bem tantas vezes. Eu fico dando conselhos idiotas para as pessoas dizendo para elas insistirem no amor ou pra elas desistirem quando começam a se machucar muito e, ao mesmo tempo, me pego desistindo do que é tão terno e me resumindo a tentativas tão fracas de botar pilha em algo que nunca dá pé.

Acho que eu tô só muito cansada.

Eu passo muito do meu tempo sozinha falando com as pessoas só por intermédio do e-mail e isso me aflige um pouco. Esse silêncio e também esse nó…

Ontem cheguei ao trabalho mais tarde. Caminhei um tempo sozinha, passei por algumas praças e lugares que não via há tempo, tive alguma expectativa de ter um dia menos ruim. Às vezes eu acho que é só a ansiedade que tem, doentiamente, detonado meus últimos dias. Às vezes acho que é só uma questão de andar só em algum lugar quente.

Mas, antes, eu preciso voltar a trabalhar…

E como incomoda esse calor lá fora.

13:30

Extraño

Observo, da janela do ônibus, as coisas andando, as pessoas andando, a vida andando. Chego ao trabalho e o mesmo. O telefone tocando, as pessoas chegando, as cobranças vindo. E eu sempre dentro do movimento, tentando acompanhar o ritmo, mas, no fundo, também estagnada.

Esse quê luzidio que a vida parece ter às vezes me embrutece. Falta essa coisa quente, palpável, real que eu vejo e me parece tão distante.

Quando eu era mais nova, lia gibis e assistia a filmes nos quais alguém sempre ficava preso dentro de um livro, de uma televisão ou um de um espelho batendo ou gritando forte enquanto ninguém percebia nada. E é assim que eu me sinto. Eu vou batendo… vou batendo no passo forte em movimentos bruscos e expressões de horror.

Horror, horror, horror. Porque ainda me assusta essa impressão tácita que eu tenho da vida.

Eu ainda me espanto de ver que as pessoas não conseguem distinguir uma apatia e uma angústia, um mau humor e uma doença, uma TPM e uma tristeza real, um abatimento e uma morte, o cansaço diário e o limite do cansaço diário. E, mesmo que fosse o de sempre, ainda me espanta reparar que aquilo que vemos de triste é problema só meu ou seu.

Talvez eu me importe demais. E isso é horrível, essa expectativa que eu sempre crio de ser, ao menos, uma interrogação na cabeça de alguém. Mas eu fico sempre reticendo, retrocedendo, retendo tudo de tudo enquanto o quase se aproxima de mim. Quase perguntou. Quase acertou. Quase deu certo. Quase quis.

Doce solidão

Ansiedade, sede, cidade

A saída da saudade não é uma ladeira, mas um morro acima.

Vai valer

Surpreendente reparar no quanto uma única conversa pode alcançar dimensões tão imprevisíveis – e boas! – na gente.

Acho que o que tem me faltado nos últimos tempos é um pouco mais de esforço. É bem essa palavra, mesmo… “esforço”, principalmente mental. Tem faltado um pouco daquela esperança ingênua que a gente tem de fazer acontecer um pouco do nosso jeito também. Tirar um pouco o pó das coisas, ser um pouco inconsequente, não fazer tanto charme com o desmanche das previsões anteriores, ligar no meio da noite na última hora se sentir falta e, também, ter fé, muita fé de que com esforço as coisas mudarão. De repente, uma fezinha bacana de que algo pode vir a acontecer.

“Mística particular”.  Li assim em um livro quando o autor se referia a um escritor inglês.

Sim, ele tinha uma “mística particular”.

Li hoje também sobre um gato-do-mato aventureiro. Meio desbaratinado, mas incrivelmente corajoso… E eu gosto. Ah, gosto…

Modus operandi

Às vezes eu sinto falta de algo ou alguém que me inspire a tanta segurança que eu já tive um dia, embora não lembre exatamente quando a tive e ainda menos quando a perdi. Não lembro exatamente como eu era
quando mantinha tudo organizado, regular, mas sei que sinto falta dessa estabilidade, de ter objetivos e focar isso com alguém (que eu julgue) equilibrado, sereno. Acho que sinto falta de uma existência na minha vida que se revele um tipo comum com problemas comuns, que calcule a dimensão real dos problemas. Se por vezes o raso me derruba, às vezes também me surpreendo como a nossa vida é carente do que (eu julgo que) é comum. Relacionamentos comuns, pessoas comuns com famílias comuns e fins de semana comuns. Eu sei que, hoje em dia, com todas as novas atribuições no cotidiano, o mercado de trabalho, a
globalização, a estafa, ninguém tem mais tanta paz da qual queira ou possa se orgulhar. Mas quando já pensamos tanto a respeito das finanças, do trabalho, das responsabilidades sociais, começo a achar demais
qualquer conflito banal com pessoas que nos são próximas.
Acho que eu sinto um pouco a falta da piedade que as pessoas me inspiravam quando agora tudo o que eu desejo é que elas se afastem. Sinto falta da vontade que eu tinha de mudar, de ser forte, quando ao primeiro sinal de desavença eu boto um ponto final no meio de tudo (e esqueço o “tudo”). Às vezes é estranho ver alguém usando o que eu disse para sensibilizar alguém, mas a real é que nem eu acredito mais que aquele papo do determinismo seja argumento pra explicar tanta gente insana, limitada, burra. E aí começo a ceder um pouco, a aniquiliar um pouco o argumento que eu tinha de que a gente pode sempre mudar, sempre lutar com aquilo que nós julgamos alheio aos nosso princípios se a gente se espelhar um pouquinho no amor.
Quase sempre eu penso assim, mas quando o bicho pega, o outro é sempre quem eu boto a perder.
Descentralizando responsabilidades pra dormir em paz.

Às vezes sinto falta de algo ou alguém que me inspire a tanta segurança que eu já tive um dia, embora não lembre exatamente quando a tive e ainda menos quando a perdi. Não lembro exatamente como eu era quando mantinha tudo organizado, regular, mas sei que sinto falta dessa estabilidade, de ter objetivos e focar isso com alguém (que eu julgue) equilibrado, sereno. Acho que sinto falta de uma existência na minha vida que se revele um tipo comum com problemas comuns, que calcule a dimensão real dos problemas. Se, por vezes, o raso me derruba, às vezes também me surpreendo de ver como a nossa vida é carente do que (eu julgo que) é comum. Relacionamentos comuns, pessoas comuns com famílias comuns e fins de semana comuns. Eu sei que, nos dias atuais, com todas as novas atribuições no cotidiano, o mercado de trabalho, a globalização, a estafa, ninguém tem mais tanta paz da qual queira ou possa se orgulhar. Mas quando já pensamos tanto a respeito das finanças, do trabalho, das responsabilidades sociais, começo a achar demais qualquer conflito banal com pessoas que nos são próximas.

Acho que eu sinto um pouco a falta da piedade que as pessoas me inspiravam quando agora tudo o que eu desejo é que elas se afastem. Sinto falta da vontade que eu tinha de mudar, de ser forte, quando ao primeiro sinal de desavença eu boto um ponto final no meio de tudo (e esqueço o “tudo”). Às vezes é estranho ver alguém usando o que eu disse para sensibilizar alguém, mas a real é que nem eu acredito mais que aquele papo do determinismo seja argumento pra explicar tanta gente insana, limitada, burra. E aí começo a ceder um pouco, a aniquilar um pouco o argumento que eu tinha de que a gente pode sempre mudar, sempre lutar com aquilo que nós julgamos alheio aos nossos princípios se a gente se espelhar um pouquinho no amor.

Quase sempre eu penso assim, mas quando o bicho pega, o outro é sempre quem eu boto a perder.

Descentralizando responsabilidades pra dormir em paz.

É o amor que ninguém mais vê

Ela e ele sempre se olhavam como se fosse a última vez que eles se viriam. Mas não. Nunca era. E ninguém poderia dizer que um deles soubesse disso. Ao contrário. Sempre se encontravam com a certeza de que o outro tomaria consciência do absurdo que era se aventurar em ideias que, para tanto (s), já soavam tão passadiças. Sempre acreditavam que o outro pudesse, finalmente, tomar o lugar que o outro julgava como seu, mesmo não sabendo como e quando o adquirira. Eram, por isso, a princípio, sempre hostis. Arrastar de cadeiras solicítos, gentilezas a esmo. É engraçado para nós pensar quão incômodo deve ser para duas pessoas que se conhecem tão bem se olharem nos olhos fingindo não tencionar coisa alguma.

Ossos do ofício

Todo o trabalho tem (ou deveria ter) uma compensação além da remuneração. Não é todo dia que eu pego um Saramago, uma Ana Maria Machado ou um José de Alencar (embora muitos não gostem, eu adoro, principalmente os urbanos) da vida para ler no trampo; ou descubro um Paulo Vieira que me lava a alma. Mas não contente em ler um dos Shinyashiki descendo a lenha no Sísifo, decorar a tabela periódica de cabo a rabo, pensar em trocentas mil maneiras de adaptar um gráfico cabuloso, fico me perguntando… como é que eu vou descrever a bendita foto de um estromatólito ou de uma cianobactéria?

Sim, sim… na minha cabeça, até uma cianobactéria tem cor.

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