Éramos nós dois ali, os de sempre, sempre dispostos um com o outro e indispostos consigo. Depois de um tempo, de tantas vidas, de tantas solidões, é normal que eu anseie, mas também tenha tanto medo de proteção. Eu fiquei o tempo todo lá, com ele, sorrindo do meu desejo e da minha dedicação, mas, ao mesmo tempo, com um medo absurdo de mim, do meu medo do medo. De tantas palavras duras, despedidas tristes, acusações equivocadas, violências e vinganças desnecessárias, principalmente nos últimos dois anos, acabei me habituando ao silêncio e convivendo muito com a insegurança. Isso deu margem para uma personalidade ora ácida, ora tímida e, quase sempre, omissa. Eu que não sabia mentir, tampouco falava a verdade. Mas eis que me aparece ele, alguém, desde aquele dia, olhos iguais aos meus, peixinho e estrelinha no mar. E desde então eu tenho oscilado entre o que persigo e o que me persegue. Mas, hoje, especialmente, depois de tantas noites reconhecendo, querendo, gozando segurança, eu vi, pela primeira vez, que já não era mais tanto mérito meu, mas uma sorte, um acaso divino, um brilho sem igual que eu já não posso fazer nada se não viver com. Com ele, por nós, seja pelo tempo que for, seja pelo medo que vai. Porque a segurança, mesmo, só me alcançou quando o vi oscilar pela primeira vez. E eu tive medo, medo, medo. Mas dessa vez o medo que eu abracei já não era mais o meu. E, como uma iluminação, selamos um novo acordo. O jogo acaba. Eis que começam os nós. Nós contra o medo. E o medo sem ninguém.

Hoje eu entrei na reunião às 16:00 e, quando voltei, às 17:30, abri minha caixa de e-mails e veio só uma porrada de 51 mensagens não-lidas. É claro que eu fiquei puta da vida, mas, depois, em compensação, quase morri.

Sent: Thursday, July 03, 2008
Subject: Re: Bons Amigos

4:31 PM: o Wilson falou que eu tava quieta, mas a Katia nem se manifestou hoje
4:32 PM: é verdade…
4:34 PM: O que será que se passa naquela cabecinha dela hein?
4:34 PM: Alguém tem algum palpite?
4:37 PM: acho q ela passou uma semana complicada por causa do assalto, deve ser isso.
4:39 PM: também acho… ai gente eu sou neurótica com essas coisas… hahaha… fiquei preocupada porque mal falei com ela hoje
4:40 PM: mas ela é forte pra caramba…
4:41 PM: ela só não pode deixar apagar o brilho dela
4:45 PM: *Sócia, te amo* (nem sei se ela vai ler isso, mas tudo bem…). *Cá e Wilson, amo ocês tamém*
4:47 PM: ; ).. que linda! amo vcs também!

Habitualmente, eu faria o número de 100 e-mails por dia dobrar, até triplicar, dependendo do assunto, mas sempre não é todo dia e, confesso, o sinal dos tempos bateu legal em mim desde segunda. Mas, nessas horas, faz toda a diferença ter uma gerberazinha, uma sócia e um herói para me lembrar que as opções ainda estão aqui. E, de quebra, na tangente, o maior suporte, o ídolo-mor. E, muito aqui dentro, frente a frente, alguém que já é todo o lado para onde eu vou correr, se precisar correr, porque já não há pressa nem complicação.

Eu acredito cada vez mais em maldade, bandido, tirinho, sacanagem, mas, hoje, voltando para casa meio bodeada, ainda por isso, levei um sustão da Dani que, se jogando na minha frente, dando aquele carinho de braço enfaixado por arteiragem, apareceu e me fez ver, sim, naqueles olhinhos, que ainda vão precisar ralar muito pra baquear o meu sorriso.

- Eu acredito no bem!

E faço mais disso que é muito melhor.

(Ria da minha vida antes que eu ria da sua)

Passando o dia bloqueando cartões, solicitando segundas vias, autenticando documentos, ligando para centrais de atendimento, emitindo boletim de ocorrência, fiquei até surpreendida com a rapidez e eficiência dos serviços, o que comprova o fato de sermos uma cidade em alerta, pronta para incidentes do tipo. Isso me safa de uma dor de cabeça maior, mas não me exime da sensação de estupidez. É o que invade, rasga, cresce, mata. Por chegar no fim do dia e ter no registro das memórias o olhar de alguém que não é ninguém para mim. O que me faz cair de joelhos é, mais que a sensação de perda, a sensação de violência, de invasão. Porque podem morrer, adoentar todos os meus, mas que nenhum sofra uma violência ou uma covardia.

Acho que nenhum deles levará muito a sério minhas coisas, mas se analisarem mais detalhadamente talvez fiquem ainda mais convictos da justiça que há em assaltar minha felicidade. Lá dá pra descobrir meus 20 anos, meu cargo de assistente editorial, o curso de Letras, os benefícios todos da empresa, meu gosto por literatura, minhas entradas do teatro e cinema, minha paixão pelo São Paulo Futebol Clube. Se lerem minhas cartas, meu tanto mais-amor. Se abrirem minha pasta de rascunhos no celular, minha poesia em tudo. Se virem as fotos da cerejeira de casa, dos nossos desenhos de ketchup, do sorriso no Pacaembu. Se repararem no Horton, na careta do Ricardo, no cabelo do Bruno, no sorriso do Daesu, na salada de frutas da Carol, nas sombras de nós quatro, no Shrek, nas ligações atendidas e perdidas, nas mensagens recebidas e enviadas, nas durações e horários, nalgum amor, nalguma prioridade, no nosso jeito de brincar, de declarar, de ser positivo, de ser descontraído, de ser a última bolacha do pacote. Se pesarem tudo isso, como eu tenho feito nos últimos três dias para engolir mais essa, talvez saquem um sorriso.

Quando o mano pegou uma folha do cesto de lixo, desamassou e pediu preu anotar naquele pedaço de papel todos os ítens que estavam na bolsa roubada, eu comecei a cascar o bico, mas fiz conforme o solicitado.

- Moça, o chocolate em pó… você lembra a marca?
- Não, não.
- E o leite em pó?
- Também não.
- Quantos eram os kiwis?
- Dois. Um pra mim e um pro Marcelo.
- As duas palhetas… Também era uma pra cada?
- Não, não. Esses foram presentes. Mas não tira da lista que é um dos itens mais importantes… Mais que a câmera até.
- Mais que a câmera?
- Mais.
- Mais que o celular?
- Mais. Só não mais que o marcador de páginas.
- Só vem louco aqui, mesmo…

E foi assim que os polícia me fizeram passar mais de uma hora em pé emitindo o boletim de ocorrência mais extenso do pico dos batateiros, provavelmente pensando como alguém que sequer alcança o balcão de atendimento pode carregar tanta tralha em uma bolsa só.

Agora vai eu explicar para os assaltantes que tudo aquilo era importante pra mim…

Hoje, passando em frente ao espelho, vi o reflexo da minha cara de bolacha e voltei. Olhei as bochechas que eu odeio, o sorriso que eu não gosto muito de boca aberta, mas acho lindo de boca fechada. Os olhos, assim, muito radiantes, da cor que eu vi nos olhos que brilham à luz da cidade eleita para nos testemunhar.
Ainda fico impressionantemente feliz de ver como às vezes me surpreendo com as novas marcas no meu rosto. Fiz, contudo, uma careta, só pra ter certeza que a alegria era da boa. E até da minha cara torta, hoje, eu gostei.

Eu acredito muito no biiiiilho do bem.

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(Manuel Bandeira)

- Sabe o que é isso?
- Uma borboleta.
- Ué, como você sabe que é uma borboleta?
- Porque eu também já desenhei uma borboleta, ora.
- Hum… E agora?
- Agora parece um… um pokemon.
- Não, besta, é um coelho astronauta.
- Ah é? E isso aqui?
- Isso aqui é o rabo dele.
- Com chapinha? Porque rabo de coelho não é desse tamanho…
- Oops, me enganei… Esse aqui é um lado da asa do morcego que tá atrás do coelho astronauta.
- Aaaaaah bom! Agora entendi…

(…)

Eu escolhi, sobretudo, uma vida de amor. Sempre pus o coração na ponta de uma faca e apontei para lá, para o amor, o amor que é sempre o lá lá lá de tudo, o lar nosso. Sempre li e escrevi histórias com finais felizes, com gente que sonha, com gente que se completa, com gente que vai lá e age por impulso, fala por falar, faz por fazer, pois até mesmo quando me faltava amor, eu achava que era pelo desejo dele que eu me arriscava, então fazia - e faço e sempre farei - e cria piamente na beleza que esse sentimento me propunha e, de tanto não saber mais onde acabava o amor que nunca chegava eu, comecei a acreditar que eu era o próprio amor. E tem sido assim. O amor está no meu jeito de sorrir, de brigar, de passar raivinha. No meu jeito de lutar, de fazer do meu jeito, tudo sempre do meu jeito, nem que seja só pelo amor próprio que não é de ninguém mas é muito meu e, por isso, é justo. Nem que pareça ridículo, mesquinho, egoísta, imaturo, vulgar, doente. Nem que me lembrem o tempo todo de todos os lados que está errado esse meu mundo de plástico-bolha. Porque eu fui lá, não liguei e vivi. E pus meu coração e meu amor no trabalho, na faculdade, nas amizades, nos relacionamentos mil. Ia chamar de investimento, mas nem isso. O amor me escolheu antes mesmo d’eu achar que amava. Porque eu fiz tudo assim, com muito amor e, por isso, está bonito, porque eu achei que era legal e ficou bom, sem pensar muito, só sentindo e admitindo tudo. E nem é por nada. É só porque, hoje, especialmente, é um dos poucos dias em que eu estou bastante orgulhosa, batendo muito no peito por todas as compensações que escolher uma carreira, um curso, um trampo com o coração me proporcionaram. E, principalmente, as pessoas que coexistem no meio disso tudo. Porque o amor é assim: começo, meio e sim. Começo, meio e mim. Que a única opção é acreditar pra sempre.

Normalmente, à essa altura, eu postaria aqui alguma foto de um dos shows do fim-de-semana, considerando que Los Porongas é, sim, a nova banda do coração com a alegria e o entusiasmo e a força vista da última vez só em 2004 ou 2005 com o Teatro Mágico. Na outra ponta, Ludov no sábado, a banda que, impreterivelmente, me faz feliz. Podia falar também dos filmes meia-boca, do Nietzsche me emocionando como nunca, do Martini e do café solitário no boteco à meia-noite, das coisas que vi e ouvi enquanto esperava companhia e, principalmente, as horas que passei perambulando pelas ruas de São Paulo pensando no tanto de erros e enganos, nas coisas todas que tenho ouvido feito morta, nas pessoas todas que tenho assistido feito mur(r)o, no meu medo absurdo e congênito da dor, na forma pífia como às vezes eu quase imploro pra vida um pouco de arrependimento, de desespero, de rancor, de descanso. Mas, acho que, principalmente, preciso falar aqui hoje da maior importância que é ter um anjo-herói, como no meio disso tudo, é doce ter um suspiro, um alívio, uma pureza e uma proteção; como é transcendental, branco, um dos dois únicos caras que, na minha vida, está limpo. Porque durante todo o tempo em que ele não está, tem me servido de inspiração e oração. Porque tenho feito, todo o tempo, de suas palavras as minhas, das tuas crenças o coração. Só pra dizer que as opções ainda estão aqui, enquanto houver você do outro lado.

Eu acredito e persigo o bem.

Hoje eu voltei para casa tão assustada com os últimos acontecimentos, com tudo o que eu vejo, com as trocentésimas coisas impossíveis que acontecem comigo em um único dia que, chegando no portão de casa e vendo as primeiras cerejeiras da arvorezinha plantada pela mamãe, fiquei meio embasbacada de perceber que, finalmente, a minha estação está chegando. Aí parei e fiquei ali, olhando, bobinha, até que os três sobrinhos da Odete, minha vizinha da frente, gritaram em uníssono lá da laje deles:
- Bêbada!
E deitaram no chão como se eu não soubesse. Aí, logo em seguida, chegou a minha vizinha no maior estilão loira-namorando-um-corpaço-burro que até hoje olha para a minha cara meio que cantando vitória por, desde os tempos do colegial, eu continuar com o mesmo passo rápido e atrapalhado enquanto ela sempre inventa um jeito melhor de empinar o nariz batendo muito bem uma nádega - enorme, diga-se de passagem - na outra e, embora não devesse, isso ainda me intimida um pouco.
Sei lá. Aí eu virei a chave rapidinho e saí correndo para dentro. De repente, reparando naquele silêncio todo da minha casa, na porta entreaberta do quarto da mamãe e, na sala, um caderninho aberto com o recado “Katia, me acorda quando chegar. Beijos, te amo, mamãe!”, senti uma paz tão, tão, mas tão grande e precisa e precisada que resolvi vir aqui e postar, só para registrar que, sim, eu ainda tenho muito, muito medo do mundo, mas ainda mais o que eu tenho é amor.

A coisa mais legal do mundo é quando a gente se acomoda em alguém, encosta a cabeça, assim, meio no peito meio no ombro meio igual lagartixa meio como borboleta meio achando que tá tudo certo, tudo muito meio-a-meio inteiradinho. E, de repente, quando já bem encaixadinho, a gente percebe que o coração do outro tá batendo, batendo, assim, bem fortão, fazendo um barulho que dá pra ouvir fácil fácil. E aí a gente olha pra pessoa já preparando aquela cara de ‘te peguei’ para sorrir-quase-rindo do nervosismo dela pra, logo em seguida, cair do cavalo sacando que toda a calma do mundo tá lá, bem na cara do dito-cujo logo no dia, na semana, no mês, na vida que tinha tudo pra dar errado, mas não deu só porque a gente encontrou a paz ali. Aí a gente sente o peito também aceleradão e toma o maior cuidado para o outro não perceber. E, depois, olhando bem a maior cara de bobo que essa sensação traz, a gente desiste da cabeça no ombro, do colo e parte para o abraço, assim, forte, peito no peito, tum tum com tum tum para depois voltar o olho no olho e achar que o mundo inteiro acaba e cabe ali.