Já há algum tempo estou cogitando a hipótese de largar um dos empregos que eu tenho, no entanto, não é algo que eu esperava decidir tão rápido, assim de supetão. Coincidentemente recebi dois convites na mesma semana para o ano que vem e ambas exigiam uma resposta de pronto. Ou eu aumento a carga da escola pública e recebo mais e largo a particular ou assumo a coordenação da particular e largo o cargo público. Obviamente optei por aquilo que eu gosto mais: o dinheiro.
Já estava decidida a diminuir o ritmo no ano que vem. Não dá para continuar mantendo três empregos e três cursos (duas pós e um pacotão a distância), ainda mais no meu caso que não sei ser menos que 100% em nada relacionado ao trabalho. Eu simplesmente não lembro como eu sou sem o meu trabalho e também não lembro um período da minha vida em que eu estudei decentemente, mesmo estudando sempre.
Decidi que no ano que vem quero ganhar dinheiro como nunca e fazer as coisas que eu sempre quis e nunca pude por falta de tempo ou excesso de gana. Coisas que, aliás, as pessoas normais fazem no dia-a-dia como praticar um exercício físico, acordar tarde, caminhar no parque, pegar sessão de cinema vespertino, ter aulas de dança, tomar cerveja depois do almoço, aprender a tocar algum instrumento, dormir decentemente, etc. etc. e me deixam morrendo de inveja. E, na contramão disso tudo, estudar de verdade (não necessariamente com tesão).
Obviamente essas escolhas implicam em grandes perdas de ordem emocional. É literalmente largar um negócio que tem a minha cara, que tem pessoas que eu amo e um valor incalculável na minha formação enquanto profissional e pessoa. É largar o tudo que me ensinou a levar a minha criatividade no último e onde eu vivi coisas lindas de segurar qualquer peão (em fases da vida que, não fosse isso, seria o cão). No entanto, eu preciso ter um tempo pra mim. Preciso.
Sempre achei que essa coisa de ter um tempo pra mim soa um tanto bichístico dependendo da parte de quem é a fala, mas parando para pensar eu acho que até mais do que precisar, eu mereço muito isso. Pode ser que eu canse logo. Pode ser que uma hora ficar embaixo do sol não me dê mais prazer, mas tédio. Até mesmo receio do excesso de tempo para pensar eu tenho, justamente porque nos últimos meses eu não tenho uma hora do meu dia disponível para esquentar a cabeça só olhando para dentro de mim. O trabalho, a pós, as reuniões, o telefone sempre me apertam e não dá tempo.
Eu ainda tenho muito da minha bichice impregnada em mim, mas eu preciso levar essa parte de mim mais a sério. Para eu olhar para as coisas mais a fundo e, principalmente, as pessoas. Pra continuar me emocionando e me doendo também. Pra voltar a ouvir música direito, a ler os livros que me faziam pirar, a lembrar como é me machucar de fato com uma lembrança, a saber como eu sou diante das minhas lembranças, a sorrir com as babaquices costumeiras.
Sei que isso tá com a maior cara de cagada, mas já é. Tá meio osso acostumar com a ideia de largar, mas uma vez que a decisão foi tomada, agora só resta marcar presença, uma vez que até o fim do ano tem muito chão. Ah, tem.