Eu nunca tive ninguém para me impor limites.
Eu cresci sem a presença do meu pai e fui criada por uma mãe sem a presença efetiva de um marido. Fui também, até certa idade, criada pelos meus avós e meus tios, porque meus pais sempre trabalharam muito. As poucas advertências que ouvi foram dadas quase sempre em tons de conselhos. Quando não, eu tinha liberdade para sempre responder no mesmo tom. Minhas amigas diziam que eu tinha sorte de não ter hora para chegar, de não ter pai ciumento, de ter uma mãe tão compreensiva. Enfim, isso não justifica as escolhas que fiz e a forma como delineei meu caráter, mas o fato é que eu realmente não tinha limites se não aqueles que eu mesma determinava. Logo, a única coisa que sempre me ficou clara é de que eu era e precisava ser forte.
Por outro lado, a minha vida foi sempre toda amor. Eu aprendi isso, sobretudo, com meus pais. Eles nunca falaram comigo, explicitamente, quando criança, sobre o quanto me amavam, mas eu sabia pelos abraços, pela forma como eu sempre andava com eles de mãos dadas, pela cumplicidade, pela forma como doía e dói dizer tchau. Eu aprendi com os meus pais um amor sem igual. O amor que eu identificava nos livros, que eu via nos filmes, tudo isso já existia antes e eu me orgulhava muitíssimo. O que eu tenho de mais valioso, eu aprendi com o altruísmo dos meus pais. Eu aprendi com eles o que mais me machucou e machuca, mas também com eles aprendi que não há arrependimento quando a dedicação é sincera, quando o amor é real.
Nos meus 15 anos eu conheci duas pessoas que, de um jeito tão revolucionário, foram colocando um monte de linhas, de lugares, de papel preu poder pintar o amor que eu tinha aprendido lá atrás. Eu encontrei quem me confirmasse o que eu não sabia dizer, mas sabia existir. Fui aprendendo que amor não acaba.
Eu tive a sorte grande de conhecer, ainda quando criança, duas pessoas que me viam como criança, mas que por algum motivo ainda muito obscuro, pra mim, enxergaram alguma coisa que eu tinha de especial e que poderia ser ainda mais especial no futuro. Entre essas pessoas e eu havia cerca de sete a oito anos de diferença. Até mesmo na rua onde eu moro, costumava andar com pessoas muito mais velhas. Eu me lembro de encarar tudo isso sob uma perspectiva muito boa. A de que eu era, sim, muito madura para minha idade, mas também que eu podia recuar quando quisesse, responsabilizando o fato d’eu ainda estar muito crua pra entender certos afetos e suas circunstâncias na proporção que elas mereciam.
Então, como ocorre com todos, eu fui ignorando o que não me animava mais e fui ficando cada vez mais próxima de alguns poucos. O problema é que essa coisa de ‘ignorar’ é o jeito mais brusco, mais sacana de incomodar alguém. E isso eu faço aos montes com muito mais naturalidade do que eu gostaria.
É claro que eu nem sempre pisei e piso em ovos. Com algumas pessoas foi diferente, mas decerto também porque tive sorte nas escolhas que fiz e, principalmente, sorte nas escolhas que fizeram. Quando a escolha é mútua, o amor não acaba. Mas sempre que acaba (va), acaba (va) sempre igual, sempre com as mesmas palavras ardilosas.
Sempre me diziam que eu era fria, que eu era meio feito pedra, que tudo era do meu jeito. Que o meu orgulho ia me matar, que eu era arrogante. E, não raro, que a culpa d’eu ser tão mimada era culpa dos meus pais. Mas, a real é que sempre que eu tretava com alguém era porque esperava que me perguntassem como eu estava, como eu me sentia, como eu sentia que eu era e não simplesmente me apontasse a cara por um único ângulo. Eu achava que o pessoal confiava demais na segurança que eu aparentava. Eu achava que achavam que eu era muito mais forte e independente do que eu realmente era.
Aos poucos fui concordando com alguma coisa, mas não que isso me incomodasse. Eu sempre tive muito claro na minha cabeça que o fato de ter sido criada assim caracterizava muito mais pontos positivos que negativos. Aí com o tempo eu fui delineando um pouco mais as minhas relações e concluindo que, sim, apesar de tudo, eu queria ser como eu era. Principalmente porque nesse caminho todo eu conheci inúmeras pessoas, mas uma, em especial, que não só me ensinou, no dia-a-dia, a valorizar mais a capacidade que eu sei que eu tenho de engrandecer o amor e fazer as pessoas acreditarem nisso, mas também que comigo viveu um amor e me mostrou, por meio dele, como eu podia mudar, me aceitar e me acertar mais pra me ajudar e ajudar mais as pessoas. Eu comecei a achar que, porque eu tinha jeito, todo mundo podia ter também.
Toda a minha história, a minha vida, todas as minhas relações me levam ao mesmo ponto, ao mesmo lugar. Eu sempre acreditei e sempre vou acreditar que as coisas mais improváveis só vão mudar por meio do amor e que sempre vale a pena insistir nele, apesar de tudo e de todos. Por causa disso, a minha dedicação não tem precedentes. Seja no trabalho, nos estudos, nas relações eu sempre só soube fazer as coisas me dedicando muito. Chega a ser algo doentio essa insistência arredia que eu tenho de acreditar que uma hora, até aqueles que mais me machucam conscientes do que estão fazendo, terão um insight e enxergarão as coisas um pouco mais como eu gostaria que elas fizessem.
O fato é que eu estou extremamente de saco cheio das pessoas me dizendo como eu sou, como eu deveria ser, porque eu sou assim, quando eu só queria que elas me aceitassem como eu realmente sou. Só queria que parassem de jogar o que eu disse contra mim me lembrando todo o tempo que eu sou como eu nunca quis ser, que quisessem ficar perto de mim só com aquilo que eu tenho pra oferecer. Queria que entendessem que, pra mim, é tão raro pedir ajuda que, quando eu peço, queria que isso fosse valorizado.
Eu comecei a escrever esse post pensando em uma coisa, mas terminei pensando em outra. Revivendo um pouco a angústia que eu estava quando comecei a escrever esse post, fiquei a me perguntar se tanta insistência, tanta determinação não é só tolice minha, não é só a esperança besta que eu tenho de novo e de novo de que o amor vai fazer com que as pessoas se importem com o fato d’eu me importar.
Por outro lado, comecei o post falando de limites. Fico me perguntando se não está na hora d’eu me resguardar um pouco, d’eu me tocar um pouco, de cair a ficha de que algumas coisas são isso aí mesmo, imutáveis.
O que eu comecei a pensar com isso tudo é se, no final das contas, escolher o caminho que eu escolhi vai me levar, de fato, a um lugar onde eu queira estar.
Ainda tenho lá minhas dúvidas.